Claudiana, Julia e Anelise, participantes do grupo "Mamães a bordo".

Um ponto de luz

Num ambiente virtual, mães encontram companhias reais. O testemunho da seriedade com a própria vida e a ajuda mútua “a lembrar do que é mais importante” (de Passos, maio/2017)
Fernanda Lanza

Combinamos um horário via Skype, uma segunda-feira, depois de deixar as crianças na escola. Atrasamos um pouco por conta de imprevistos de quem caminha na imprevisibilidade diariamente. E dentro desta dinâmica, de mães com jornadas dupla e às vezes tripla, iniciamos nosso diálogo.
Claudiana Vivian, de São Paulo, então começa a me contar como surgira, há quatro anos, um grupo de Escola de Comunidade interestadual via Skype, formado por mães. “Por eu dizer sim à minha vocação, parecia que eu estava perdendo algo. Era contraditório, eu queria estar nas coisas e Deus me queria em outro lugar”. Claudiana me explicava como a rotina com as cinco filhas e a casa não a permitia estar presente nos gestos do Movimento e como isso, naquele momento, era doloroso. Foi quando nasceu nela um pedido, de que aquele desejo fosse respondido.
No ano seguinte, nas férias dos adultos organizadas pelo Movimento em julho de 2014, Claudiana, impedida de ir a um passeio de barco para ficar com uma das filhas que estava doente, encontrou outra mãe em sua situação. Neste momento, nasceu uma amizade com Anelise, do Rio de Janeiro. “Fiquei muito marcada com aquele encontro e quando voltei para São Paulo, e ela para o Rio, propus que fizéssemos Escola de Comunidade juntas. Eu não queria esperar que minhas filhas crescessem para eu poder participar. Então entendi que aquela era uma resposta ao meu desejo de pertencer a este caminho”.
O convite fora estendido ao grupo de whatsapp “Mamães à Bordo”, que naquele momento reunia muitas mulheres, sobretudo com filhos pequenos, que se ajudavam com questões relativas às crianças. Muitas delas já fizeram parte desta Escola de Comunidade. “O grupo mudou bastante, porque ele acompanha a necessidade das mães e o objetivo do grupo é ser companhia para quem realmente não pode participar dos encontros presenciais”, explica Claudiana.
Atualmente, cerca de oito mães, de diferentes cidades brasileiras, encontram-se virtualmente uma vez por semana, às 21h30. As reuniões seguem as indicações de Julián Carrón, ou seja, seguem os textos de trabalho indicados para todo o Movimento. Claudiana prepara cada encontro, sempre propondo uma pergunta a partir do texto trabalhado. “Este grupo nasceu por uma necessidade específica, por isso, é um espaço precioso, é uma graça ter este lugar e fazer este caminho juntas. A gente se faz companhia porque uma ajuda a outra a lembrar do que é mais importante”.

Sustento no dia a dia. Estimulada por Claudiana, parto então para o encontro de outras mães do grupo, a fim de conhecer as histórias destas mulheres. E minha jornada acontece “visitando” três estados diferentes.
A primeira mãe com quem converso é Julia, do Rio de Janeiro, que tem três filhos. Sua primeira mensagem me diz: “Amanhã de manhã aplico prova para minha turma e à tarde tenho reunião na escola das crianças. Tudo isso com minha bebê de seis meses”. Fico ainda mais instigada por saber o que Julia encontrara neste grupo. “Eu conheci mães de vários estados do Brasil, fiquei próxima de algumas, vi o testemunho delas, porque são mulheres muito maduras na fé. O que me impressiona nelas é o fato de levarem muito a sério todas as dimensões do Movimento, os gestos propostos. E eu comecei a ver como isso fazia diferença na vida delas”.
Julia, que participa das reuniões desde o começo, me diz que além do horário ser ideal para a rotina da casa, este formato permite uma objetividade. “Tem uma sistemática bem objetiva, as pessoas falam e são ouvidas de forma ordenada. Em função disso eu gosto, porque acaba sendo muito profundo, as pessoas vão direto ao ponto, colocam a vida”.
Há também algumas peculiaridades nesta Escola de Comunidade, que segundo Julia, entra literalmente na rotina. “Percebemos aspectos da casa de cada um, às vezes as crianças estão perto, eu já ouvi testemunho dando banho em filho. É uma coisa que se mistura muito com a vida, às vezes você está amamentando, colocando a criança para dormir e vai ouvindo. É realmente uma ferramenta e um dom de Deus pra gente, porque permitiu a gente estar em contato e se ajudar, mesmo nessa circunstancia em que é difícil encontrar um grupo com horário viável”.
Quando perguntada sobre a importância deste grupo em sua vida, Julia afirma: “Muitas coisas começaram a acontecer, eu enfrentei dificuldades de vários tipos, questões ligadas ao trabalho, a perda de uma gravidez, eu ganhei uma filha (a terceira). E essa Escola de Comunidade era o ponto que mais me ajudava na vida, a viver e a enfrentar”.
Também do Rio de Janeiro, converso com Paula, mãe de três meninos entre 1 e 4 anos de idade. Paula inicia nossa conversa se desculpando por não ter conseguido me responder imediatamente, e explica que o marido está viajando, e ela está sozinha com as três crianças. Ela prossegue, e me conta como as reuniões transformam o dia a dia com os filhos. “A Escola de Comunidade é um ponto de luz, de sustentação, de renovar sempre o sim que eu dei. Uma forma de poder olhar meus filhos de um modo diferente, não cair na rotina exaustiva que é ser uma mãe de três. É como se fosse um respiro”. Grata por esta Escola de Comunidade, Paula me descreve como se sente. “Ter esta possibilidade de fazer por Skype, foi como se Cristo falasse para mim Eu consigo chegar até ai, eu consigo chegar até você, mesmo diante de tudo isso”.

Familiaridade imprevista. De Brasília, me escreve Luciana, mãe de Helena de 8 meses e grávida da Heloisa. Ela me conta que naquele dia não pôde trabalhar porque estava cuidando de sua bebê doente. Recém-chegada ao grupo, Luciana me descreve a novidade que este gesto trouxe para sua vida. "A Escola de Comunidade tem sido para mim uma grande companhia, um lugar concreto, presente e precioso! Comecei a participar há pouco tempo, mas a familiaridade que temos é impressionante. Muitas das minhas novas amigas eu não conheço, nunca encontrei pessoalmente! Para mim tem sido um aprendizado, algo que me chacoalha toda. Deus é mesmo impressionante, me alcança, penetra através da experiência real, agora na concretude da vida, casada e mãe".
Rose, de São Paulo, mesmo tendo filhos mais velhos e conseguindo participar presencialmente dos gestos do Movimento, decidiu também acompanhar este grupo de mães por ser uma experiência intensa para sua vida. “Percebo que são pessoas muito vivas, muito provocadas pela realidade. Percebem não estar sozinhas nessa experiência de ter filhos pequenos, que é um pouco solitária, porque são chamadas a responder a concretude de cuidar deles. E eu olho para elas fascinada por ver como são respondidas nesse caminho.”
Diante de tanta vida que brotou do desejo de Claudiana, há quatro anos, ela mesma define da melhor forma este acontecimento: “Deus respeita e responde a nossa humanidade. Através da amizade que nasce com essas pessoas é a forma como Ele me alcançou”.