João Gilberto

João Gilberto, a bossa nova e o mundo

Várias pessoas comentam que não entenderam a aceitação da Bossa Nova em nossa música, nem entenderam o fascínio por um cantor de voz fraca que não sabia realmente tocar bem violão. São impressões de uma época. Algumas se alteraram. Outras permaneceram
Cezar dos Reis

A notícia de falecimento de João Gilberto, no último dia 6 de julho, imediatamente despertou comentários, reportagens, retrospectivas, depoimentos, etc. que se multiplicaram pelo mundo afora ressaltando, com justiça, a inegável importância do personagem para a cultura brasileira e para a música popular a nível internacional.

Os mais idosos recordam os anos 50, quando a fase do Samba Canção ia cedendo espaço para a novidade que aos poucos se formava e viria a ser chamada de Bossa Nova. A geração de menos idade recorda que cresceram já vivendo os efeitos da influência da Bossa Nova, fase já impregnada no modo de cantar, tocar, compor, desenhar, filmar... Ainda viriam os períodos conhecidos como Jovem Guarda e Tropicália, com a forte participação do rock’n roll, mas sem apagar as influências já solidificadas surgidas no final de anos 50 e desenvolvidas principalmente na metade da década seguinte.

Alguns fatos foram repetidamente veiculados, sem que fossem suficientemente detalhados e esclarecidos aos mais jovens. Por isso esta nossa reflexão.

Muitos jovens, e não tão jovens, entenderam assim: “Então, o disco Chega de saudade, de 1959, trouxe João Gilberto ao conhecimento público, ao mesmo tempo que era criada a fase Bossa Nova?”. Na verdade não foi isso. Mas é a impressão geral que ficou no ar.

Esclarecendo melhor, João Gilberto, com seu ritmo inovador ao violão e a inclusão de muitos acordes dissonantes, acentuava o “balanço” dos sambas, ao mesmo tempo que trazia novos elementos de harmonia ao acompanhamento por causa da influência recebida do jazz da época. Ele já havia demonstrado isso no ano anterior, 1958, ao participar da gravação do primeiro disco de Elizete Cardoso, Canção do amor demais, com composições de Tom Jobim e Vinícius de Moraes, parceria que já rolava há alguns anos. A própria Chega de saudade era uma das faixas, e foi o título do primeiro LP de João Gilberto, lançado em 1959 e considerado hoje o marco inicial da Bossa Nova. Assim começou a contribuição de João Gilberto e seu violão para a transformação que a MPB sofreria na década seguinte.

Interessante colocar, todavia, que a Bossa Nova já estava se desenvolvendo anos antes através da utilização das dissonâncias e técnicas instrumentais fornecidas pelo jazz e assimiladas por Dick Farney, Johnny Alf, por exemplo, mas ao piano, e nos arranjos, além da evidente influência de Bing Crosby, e outros ícones do jazz, na maneira de cantar.

Reconhecido esse fato, e voltando a 1959, observaremos que, além do Chega de saudade de João Gilberto, vários outros artistas fariam parte do mesmo cenário lançando seus trabalhos. É o caso da conhecidíssima canção Dindi, de Tom Jobim e Aloisio de Oliveira, que cantamos até hoje, gravada no LP de Silvinha Teles, importante personagem da Bossa Nova em breve futuro. A menos conhecida hoje, Luely Figueiró, também a gravou naquele ano. Dóris Monteiro lançava seu LP Dóris. Ninguém menos que Roberto Carlos, futuro “Rei da Jovem Guarda”, gravou seu primeiro 78 rpm, em 1959, cantando no estilo de João Gilberto, duas composições suas em parceria com Carlos Imperial. O grande ícone da Bossa Nova, cantor, violonista e compositor Carlos Lyra lançou seu primeiro LP naquele período, contendo a obra Maria Ninguém, composta para o filme de Herbert Richards Pistoleiro Bossa Nova. Maysa gravou O nosso olhar, de Sérgio Ricardo. Um tal grupo “Conjunto Bossa Nova” também lançou seu disco nesse ano, tendo como guitarrista ninguém menos que Roberto Menescau, futuro ícone da Bossa Nova até hoje. Existiu uma “Orquestra Rudá” que, nesse ano também, gravou um LP chamado Clássicos em Bossa Nova, onde se pode ouvir obras de Carlos Gomes, Mozart, Chopin, Beethoven, etc... tudo em ritmo de Bossa Nova. O grupo vocal “Os Cariocas”, criado em 1942 por Ismael Neto viria a ter importantíssima participação nos anos 60, interpretando obras da Bossa Nova, mas em 1959, participando da série de discos Silhouette – Samba internacional com a Orquestra Pan American, tinha Chega de saudade como uma das faixas gravadas. João Gilberto participou dessas gravações com seu violão. Esses são alguns exemplos daquele momento.

Muito injusto, entretanto, não lembrar que o primeiro disco do nosso gênio do violão, Baden Powell, também foi lançado em 1959, com o título de Apresentando Baden Powell e seu violão. Nesse trabalho ele ainda não tinha o toque Bossa Nova, mas sua técnica de violão erudito encontrou depois, na parceria com Vinícius de Moraes, a oportunidade perfeita para incorporar em sua técnica tanto os elementos afros apresentados pelo poeta como a “levada Bossa Nova” trazida por João Gilberto havia pouco. Seu êxito foi internacional, mais do que nacional, e assim sua contribuição para a difusão da arte brasileira foi definitiva. Os franceses e alemães ainda se recordam disso muito mais claramente que nós brasileiros. E a semente desse impulso foi João Gilberto.

Com esse quadro, a impressão que se tem é a de que, com tantos exemplos nítidos e claros, naquele ano, as melodias, letras e ritmos da Bossa Nova já estavam nos ouvidos do povo, sendo repetidos continuamente. Mas não foi assim. O jazz e a Bossa Nova ainda não haviam chegado à vida do povo em geral, e eram assimilados por uma pequena parcela da classe média, principalmente no Rio de Janeiro. Muitas outras coisas paralelas aconteciam. Vamos ver como isso rolou...

No mundo inteiro as pessoas ainda tinham na memória a melodia assoviada, inclusive nos estádios de futebol, da Marcha do coronel Bogey do filme A ponte do rio Kwai, estrondoso sucesso do ano anterior. Os brasileiros, além disso, estavam com a marcha tema da Copa do Mundo de 1958, afinal o Brasil era campeão mundial de futebol pela primeira vez, enquanto era revelado ao mundo um tal de Pelé.

Outros sucessos fortes eram: Volare, de Domenico Modugno, ganhadora do prêmio Grammy; Diana, de Paul Anka. Na Brodway, em 1959, a sensação era Sound of music, peça musical que, futuramente, transformada em filme, ficou conhecida por nós como A noviça rebelde.

O Brasil também foi premiado no cinema recebendo a Palma de Ouro em Canes, 1959, pelo filme Orfeu Negro, baseado numa peça de Vinícius de Moraes. Outros três filmes estrearam em 1959 tendo Brigite Bardot como estrela principal. Esse é o detalhe! A popularidade de Brigite era incontestável. Quem a amava, quem a odiava, quem era indiferente, todos iam assistir a seus filmes por “algum motivo”. O próprio presidente da França, Chales De Gaulle, a descreveu como “a exportação francesa mais importante que os carros da Renaut”. Entenda. Isso não era pouca coisa na época!

Observemos que tudo isso acontecia no mesmo ano em que João Gilberto preparava o Chega de saudade, seu primeiro LP. O brasileiro estava muito orgulhoso por seu desempenho no futebol e no cinema. Contudo, no panorama internacional, nada podia se equiparar às carismáticas existências de Brigite Bardot e Pelé.

Agora, paralelamente às coisas positivas, o mundo da música teve, também em 1959, expressivas perdas. Faleceu a compositora e cantora Dolores Duran, antes de saber do sucesso que seria sua A noite do meu bem, que cantamos até hoje. Também perdemos nosso compositor Heitor Villa Lobos em novembro. Fora do Brasil a música perdeu Albert Ketelbey, compositor, Billy Holliday, cantora, Buddy Holly, cantor e compositor, Mario Lanza, tenor. São alguns exemplos. Vicenzo Nonino Pianola, não era artista conhecido. Sua morte, porém, nesse mesmo ano, inspirou seu filho Astor Piazzolla a compor, em sua homenagem, uma das canções mais belas que a humanidade já conheceu: Adios Nonino.

Voltando a João Gilberto e à Bossa Nova, não demorou para que sua incrível “pegada” ao violão chegasse aos ouvidos internacionais, principalmente nos Estados Unidos. Vamos reconhecer que, além de nosso violonista/compositor Baden Powell, já citado, vários outros artistas estrangeiros também foram responsáveis, cada um a seu modo, pela eficiente propagação da Bossa Nova, de seus autores e intérpretes. Luiz Bonfá, outro violonista, que residiu muito tempo nos EUA, já era admirado por João Gilberto bem antes dessa época. João Gilberto dedicou a ele a instrumental Um abraço no Bonfá, que vale a pena conhecer.

Um exemplo fantástico e injustamente não comentado é o caso da parisiense Caterina Valente, que, com seu exagerado talento e versatilidade, assimilou com facilidade a interpretação da Bossa Nova, tanto ao violão quanto no canto, executando o acompanhamento à maneira João Gilberto com perfeição. Isso pode ser visto, via YouTube, em alguns programas antigos de Dean Martin e Danny Kaye, por exemplo. Apesar de não ser brasileira, ela cantava em português, tocava e brincava com os ritmos e textos da Bossa Nova com liberdade total. Podemos encontrar gravações dela cantando Samba de uma nota só em outros idiomas, afinal era fluente em vários deles, e fazia grandes shows ao vivo em países diferentes, no idioma local. Dessa forma, ela levou a vários lugares do mundo algumas peças da música brasileira, principalmente da Bossa Nova, e assim nossa arte ficou conhecida de maneira mais abrangente fora do Brasil. Ela nasceu no mesmo ano que João Gilberto, e ainda vive. Impossível conhecer seu trabalho e não ficar surpreso e fascinado.

Voltando a João Gilberto, é verdade que aquele “toque”, ao violão, influenciou toda a próxima geração de músicos pelos anos 60 afora, a ponto de fazer Gilberto Gil deixar de lado o acordeão e assumir o aprendizado do violão, o que faz de maneira brilhante até hoje. Caetano Veloso foi impactado na mesma época e essa influência iria permanecer para sempre em sua forma de tocar, compor, cantar e passando pelas outras fases da música nacional, sem perder a essência que adquiriu em fins de anos 50.

Para os mais jovens e não conhecedores de detalhes dessa história, não fica muito claro a razão pela qual o ritmo de João Gilberto ao violão chamou tanto a atenção internacionalmente. Isso porque as obras citadas nas reportagens são sempre aquelas: Chega de saudade, Desafinado, sempre citando principalmente o seu primeiro LP e o Amoroso gravado nos anos 70. Nessas gravações, o violão de João Gilberto está um pouco diluído, ofuscado, no meio dos arranjos e orquestras que participaram das faixas referidas.

Para ouvir com extrema clareza e precisão o verdadeiro “toque” de João Gilberto ao violão, assim como sua elogiada dicção no canto, o ideal é ouvir, com calma, por exemplo, o tal “disco branco” de 1973, no qual ele gravou a fantástica Eu vim da Bahia de Gilberto Gil, Águas de março de Tom Jobim, Isaura de Herivelto Martins e algumas outras. Ali é possível ouvir, de um lado, o violão e, de outro lado, a voz. Fascinante realmente, principalmente para quem toca e conhece um pouco de violão.

Faça exatamente o que você quiser

Naqueles anos 50, quando um artista iniciante chegava a um estúdio para gravar, era porque já estava aprovado e apoiado por vários profissionais experientes, pois o investimento era alto e não seria empregado em coisas incertas.

Na primeira experiência de gravação de João Gilberto, quem estava presente, observando, era o consagrado, exigente e crítico mestre Ary Barroso. Todos sabiam de sua maneira de agir, recomendando, aconselhando, corrigindo, criticando, apoiando. Após observar João Gilberto, ao chegar o momento de iniciarem as gravações, mestre Ary se aproximou e, surpreendentemente, disse a ele: “Faça exatamente o que você quiser”. E pronto! Ary Barroso havia percebido que estava ali algo muito diferente de tudo o que já se havia conhecido na música brasileira. Mas teve a sabedoria de reconhecer que não era para mexer, nada a ser modificado.

Assim permaneceu João Gilberto, por toda a sua vida, com seu jeito de tocar e cantar, que muita gente não gosta até hoje, e outros se fascinam até hoje, como pode acontecer com qualquer artista. Também sua personalidade, não muito fácil, de pouca comunicação falada, timidez e aparente impaciência, aborreceu muitos técnicos e organizados nos momentos de shows, ou melhor, “concertos”, mas por causa de suas exigências na intenção de produzir a música pura, limpa, com respeito e clareza.

É dessa forma que se deve ouvir João Gilberto. Com a mesma exigência que ele tinha ao se apresentar. Concentração, respeito, silêncio, paixão, fascínio pela arte.

Se não foi assim, ninguém ouviu João Gilberto. E ninguém compreendeu a Bossa Nova.