A carta datilografada

O sim no instante presente

Padre Pigi Bernareggi, aos 80 anos, continua se deixando provocar pela situação atual. Aqui responde a algumas questões postas por sua amiga Rosetta Brambilla

Nesta semana, padre Pigi Bernareggi enviou uma carta datilografada por ele à sua amiga Rosetta Brambilla. Ambos são italianos, moram em Belo Horizonte e vieram ao Brasil como missionários na década de 1960 impulsionados pela vida de Gioventù Studentesca (primeiro núcleo de Comunhão e Libertação). Aqui, a transcrição de suas respostas às provocações deste tempo.

1. Como o nosso sim ajuda a construção do mundo?
Nós não vivemos no passado, que já passou. Não vivemos no futuro, que ainda não chegou. Vivemos neste instante PRESENTE que está passando, e num piscar de olhos já passou (segundo Sören Kirkegaard: “öie blick”); é nesta instantaneidade que a vida acontece e o mundo se cria.

Ora, no acontecer deste instante presente, QUEM é que constrói? É a minha capacidade, genialidade, operatividade? NÃO: eu não tenho o domínio sobre o que acontece no instante presente, pois ele “passa” subtraindo-se a qualquer tentativa de dominá-lo. É só o poder infinito de Deus que constrói – cria tudo: por isso é chamado “presente” (“dom” imprevisto e admirável d’Ele).

Mas POR QUE o Deus da vida e do mundo faz tudo isso no nosso instante presente? Para suscitar em nós a maravilha, o encanto, a contemplação, a gratidão, o amor, afinal a nossa COMUNHÃO com Ele, o NOSSO SIM. Daí aparece claramente que o nosso “sim” não só é uma ajuda à construção do mundo, mas é o verdadeiro propósito para o qual o mundo existe – é a essência da nossa humana experiência do dia a dia.

2. Muitas vezes o nosso sim quotidiano parece ser inútil...
Do que dissemos acima fica claro que a utilidade do nosso envolvimento com a ação criadora de Deus no instante que passa (ou seja, o nosso SIM) é importante, aliás, é essencial da própria ação criadora. Na instantaneidade da nossa experiência, Deus tudo faz para nos “conquistar”, nos ver encantados, gratos, em sintonia de comunhão com Ele: Deus tudo faz PARA NÓS. O nosso “sim” é tudo para Ele no presente (ou seja, no ato d’Ele nos doar tudo).

A utilidade do nosso sim para Deus não consiste em FAZER nada; ou melhor, consiste em nos doarmos a Ele, nos abandonarmos no amor criador e criativo d’Ele.

O sentido de inutilidade que às vezes aparece não brota do não ter nada para fazer, ou do fazer coisas que não dizem nada: brota sim de um viver (sozinho ou em comunidade) sem encantamento, sem admiração e gratidão, o que vale dizer “SEM MEMÓRIA” do gesto criador d’Ele no instante que passa. É esta a vida “mundana”: a vida com mil coisas para fazer, sozinhos ou em comunidade, mas sem encantamento nenhum.

3. Ser útil para as pessoas, para o mundo, parece ser o “fazer”; e neste tempo de isolamento qual é a utilidade do nosso ficar em casa, nas tarefas mais quotidianas?
Num sentido negativo, é escapar do equívoco de que “o mundo se constrói sobretudo a partir do nosso fazer”. Sendo que na realidade o mundo surge novo e imprevisível a cada instante da ação criadora do Deus-Comunhão que nos convida a cada instante a vibrar com o nosso "sim", mergulhando nós também nesta comunhão: “MEMORES DOMINI”.

Num sentido positivo, encarar tudo como uma chance imprevista de sintonizar o clima de nossa vida particular e comunitária. NÃO em exterioridades – por impressionantes que possam parecer – e SIM no Mistério profundo da presença de Deus em tudo e em todos.