Mônica Salmaso (© Paulo Rapoport)

Um tempo para olhar longe

A pausa repentina, as ações de proteção e a descoberta da vulnerabilidade. Fatos que de repente mudaram a vida. Uma conversa com a cantora Mônica Salmaso, que divide conosco suas descobertas deste tempo. Da Passos de setembro
Marco Montrasi, Marcela Bertelli e Silvia Caironi

No mês de agosto fizemos um encontro público pelo YouTube com a cantora brasileira Mônica Salmaso. Muitos já a conheciam, mas foi durante a pandemia da Covid-19, obrigados ao distanciamento físico e a permanecermos dentro de nossas casas, que muita gente passou a acompanhá-la pelo Instagram. Com a iniciativa batizada de “Ô de casas”, Mônica já gravou mais de cem encontros musicais com artistas que nos revelam o que há de melhor e mais diverso no cenário da música popular brasileira, compartilhando em suas redes sociais essa série de parcerias. Logo depois, enviamos algumas perguntas a ela, desejando a continuidade dessa conversa para aprofundar assuntos que nos pareceram importantes.

Neste período, acho que todos nós vivemos a experiência do medo: chegou de repente algo que tirou todos os pontos de referência de forma imprevista. Ao mesmo tempo essa experiência tirou da obviedade um monte de coisas nas quais nem pensávamos mais ou nunca pensamos: o valor da vida, o meu eu e meus desejos mais profundos, o valor do outro e dos relacionamentos. Como foi para você viver esse terremoto?
Ainda é viver esse terremoto. Acho que o principal dessa situação é a vulnerabilidade, porque medos todos temos, maiores ou menores, pontuais. Nunca atravessei nenhuma guerra, nada da natureza atacou a minha forma de viver, como em outros países, sou uma pessoa que pôde estudar em escolas particulares, que viveu sempre em lugares de risco menor, sou uma pessoa de pele clara. Enfim, a vulnerabilidade nunca foi uma coisa de base na minha vida. E apesar de me achar uma pessoa bem razoável pelo reconhecimento disso nas outras pessoas, eu nunca tinha sentido nada parecido. Esse foi um fato que esse terremoto trouxe e eu pretendo aproveitar. Eu pretendo ter consciência dele pra ser uma pessoa melhor, pra ter uma melhor compreensão das desigualdades que existem no Brasil, dos direitos que as pessoas têm e não são respeitados. Acho que a gente tem obrigação de aproveitar essa experiência nesse sentido.

No mundo de hoje a “performance” é tudo. Somos medidos pelos resultados, aquilo que não dá lucro é considerado algo problemático, que precisa ser corrigido ou descartado. Quem tem sucesso é “abençoado”, quem tem problemas é um fracassado. Esse momento fez vir à tona a percepção de sermos todos fracos, frágeis. Mas nós maquiamos muito a nossa fragilidade. Desde as fotos no Instagram até os nossos sorrisos um pouco falsos com os amigos ou conhecidos que cobrem muitas vezes feridas que não se revelam para ninguém. Mas a vulnerabilidade revela a nossa humanidade, que contém um desejo infinito. Talvez esse momento possa nos ajudar a descobrir isso, a nossa natureza frágil e ao mesmo tempo reveladora de algo infinito, de desejos de algo mais belo, verdadeiro, justo, que estão vivos dentro de nós e que são o nosso motor desde que acordamos de manhã. Não sei se concorda com isso.
Eu faço esse exercício, e não é, de fato, um exercício que está na moda no momento do mundo, que é o exercício de você saber o quanto você precisa, qual é a sua medida de sucesso ou de felicidade, quanto é que você precisa. Eu já me fiz essa pergunta muitas vezes e já me emocionei muitas vezes em ver quem faz essa pergunta chegar à conclusão de que não precisa de muito. Você precisa de seu tanto, do seu teto ali. É uma pergunta boba, simples, mas que poucos se fazem. Eu cheguei a um momento da minha vida em que eu sinto que a felicidade pra mim é manter o que eu tenho, a vida que eu tenho, eu gosto dela, eu não quero que ela seja outra vida, e já é um privilégio enorme. Ela depende de uma coisa que é justa, do tamanho que foi feito até agora. Então, eu acho que esse é um valor importante. Mas isso também se vulnerabilizou neste agora. O meu trabalho está duramente ameaçado neste momento, está paralisado, e a gente não sabe como e quando vai voltar. Então, essa é a novidade, essa é a vulnerabilidade que quem vive das artes presenciais está sentindo. E acho importante que as pessoas falem disso e dividam o que estão vivendo. O que não significa que a gente tenha que expor a nossa vida, fazer com que se torne um reality show. Acho que a gente tem que se preservar também. Temos que ter cuidado com o que dividir. Sem mentir, sem maquiar, mas preservando também a privacidade, que eu acho importante.

O seu canto encanta. A sua voz carrega algo que nos toca quase que fisicamente, dá pra sentir... mas impressiona no seu trabalho como você mostra que precisa dos outros, e, mais ainda, vê-se que você fala sempre “dos seus amigos”. Como se isso fosse uma complementação necessária para a voz se expressar, para poder transmitir aquilo que você deseja. Qual o valor do outro para você? No seu trabalho, na busca da expressão artística, na sua vida.
No meu trabalho não existe a não existência do outro. Primeiro de tudo porque eu não componho, então o que eu faço depende de outros, a minha matéria prima primeira é algo que outra pessoa fez. E, depois, o destino final do que eu faço também é o outro. Eu não canto para mim, eu canto para os outros, eu canto para oferecer aos outros. E no meio do caminho tem o fato de que o meu prazer é fazer música junto. Acho gostoso cantar à capela uma música, depois eu já começo a sentir falta dos meus amigos, falta de fazer música junto. A música é um veículo de comunicação, de expressão, muito bonito para mostrar o quanto as diferenças são bem-vindas, a soma é bem-vinda. Pessoas de culturas diferentes, com linguagens musicais diferentes, quando se encontram, e o coração está aberto, o resultado costuma ser bom. Então, a música serve para exemplificar a beleza dos encontros.



Nós temos algumas iniciativas culturais das quais falamos com você. Um exemplo é o Meeting de Rímini, outra é a nossa Revista Passos. Nós fomos educados no Movimento a conhecer as expressões da arte, como a música, a literatura, as artes visuais. Exatamente para educar o nosso coração a ser vivo, a ser ele mesmo, a ficar acordado, a ficar escancarado. Ler e conhecer mais a realidade assim nos abre a mente e o coração, nos torna mais humanos. Mas vivemos num momento em que tudo deve correr rápido, devemos ser rápidos. Você falou do silêncio. Como é essa experiência do silêncio. O que tem a ver isso com a necessidade de parar, de se educar a “parar” para ler, escutar e ouvir, refletir? Parece algo a que devemos ser sempre educados.
A gente tem enormes dificuldades nesse momento, não neste momento da pandemia, mas neste momento do mundo, de parar. Somos incitados a ler tudo, a saber tudo o que está acontecendo, a expressar opinião sobre tudo, e isso é extremamente cansativo e é incrivelmente improdutivo. Eu não tenho vontade de saber a opinião de todas as pessoas do mundo sobre todos os assuntos. Nenhuma. Eu li uma maravilhosa entrevista com o Umberto Eco, que tem um livro que fala sobre isso, em que ele diz exatamente que não tem interesse de ouvir um monte de gente – que não sabe sobre assuntos – têm a dizer sobre eles. E eu não tenho também, assim como eu não me sinto à vontade para responder sobre assuntos que eu não domino. Eu acho que ninguém tem que saber sobre tudo, não tem graça nenhuma isso, fica um monte de frágeis opiniões. Então, o silêncio, o vazio, é um bem cada vez mais raro, pois a todo momento todo mundo está falando sobre tudo. A gente tem que fazer um policiamento e se dar esse direito. Eu sou uma pessoa de cidade grande. Nasci em São Paulo e só aos 40 anos é que eu pude ter um espaço, que é essa casa aqui no interior, onde eu estou, pois vim pra cá com minha família, e desde que cheguei me impressiono em quanto aqui eu faço silêncio. Isso tem a ver com poder olhar as coisas, o tempo das coisas, tem a ver com o estar num lugar que tem mais natureza, e tem mais espaço mesmo pra poder olhar longe. Às vezes eu pego um livro pra ler e nem consigo ler porque aparece um passarinho, aparece uma borboleta, porque acontece alguma coisa que me chama, que não é pra nada, é pra olhar. É realmente um exercício, e é muito importante. E do silêncio nascem as coisas, do silêncio nascem as ideias, nascem as vontades, os desejos, os desejos profundos. Senão o desejo é só tampar um buraco do silêncio, você vira inimigo do silêncio, como se ele te colocasse numa situação de incômodo, e na verdade ele tem que ser seu amigo. É a diferença entre ser solitário e sozinho, entre sentir solidão e estar sozinho. É um pouco assim.

Você se definiu como uma workaholic. Gostei muito de ouvir você falar do seu trabalho. Por exemplo, dá para perceber uma busca e um desejo constante de conhecer e fazer conhecer a riqueza imensa das culturas diversas que temos aqui no Brasil, que parecem ficar escondidas hoje em dia na frente de tantos problemas e debates. Percebe-se no seu trabalho um cuidado com os detalhes, que não é perfeccionismo. Você disse: “eu vejo algo que reverbera em mim e eu quero oferecer isso ao outro”. O que é o trabalho para você?
O meu trabalho é o meu ofício, é aquilo que eu escolhi pra fazer nessa única grande engrenagem que é o mundo. Eu não acho que o meu trabalho seja mais importante do que quaisquer outros trabalhos. Entendo que a gente vive numa engrenagem complexa, gigantesca, onde cada função tem seu papel e todos dependem de todas elas. Então, aquilo que você faz, você faz para fazer parte dessa engrenagem. É o seu ofício, é assim que eu entendo. Eu faço o meu trabalho com muito amor, com muito gosto. Sou perfeccionista, e não no sentido doente, patológico, mas no sentido do cuidado mesmo, do detalhe, do amor, eu quero fazer o melhor. Acho que isso é importante, e isso cria, no meu trabalho, a certeza que as pessoas podem ter de que eu estou oferecendo o meu melhor. Elas podem até não gostar, mas aquilo é o meu melhor. Então, numa relação de identidade artística, como é o trabalho de um artista, eu acho que isso é um valor muito importante que o público tem, de saber que ali é feito o melhor, o melhor que aquela pessoa possa oferecer. Se não reverbera na pessoa, se ela não tem identidade com aquilo, se ela não gosta, não tem problema nenhum. Mas quem gosta sabe que está recebendo o melhor. E na minha utopia de mundo, as pessoas deveriam fazer isso em todos os ofícios, em todos os trabalhos, em todas as peças dessa engrenagem. Acho que o mundo ia ser mais bonito. Certamente ia ser um mundo mais feliz.

No nosso encontro você comentou ter aproveitado como nunca as palavras das canções do Caetano Veloso na live que ele realizou; que as palavras entraram dentro de você. Podemos dizer que é uma espécie de posse íntima da música? Como esse pertencimento influencia sua forma de olhar e de conhecer as coisas, a própria realidade?
Certamente isso não é tão forte em todos os países, mas no Brasil a poética na canção popular tem um poder muito grande, ela fala sobre todos os assuntos. Há uma cantora, a Joyce Moreno, que fala muito bem disso. Ela diz que existe resposta pra tudo na música popular brasileira. E é fato. Se escreveu sobre tudo, as crônicas mais variadas, os sentimentos humanos mais profundos, tudo isso está dentro da canção popular brasileira. Então, por trabalhar com isso eu já tenho uma relação com essa poesia, com a forma de entender e de repassar, de reler essa poética. Mas nesse momento, o que eu senti na live do Caetano Veloso, que me emocionou, é que músicas cuja letra eu sabia e que eu conhecia de cor, e elas tinham um sentido, passaram a ter um sentido mais agudo, mais profundo, no momento em que nós estamos em carne viva em muitos assuntos, políticos e emocionais. Então, a própria percepção da gente está alterada, mas alterada como uma lupa, como uma lente de aumento para receber a poética, a poesia, com outras forças.



Você comentou conosco que uma das coisas que te ajuda a não ficar paralisada diante dos desafios, das injustiças e da dor que estamos todos vendo acontecer neste momento, é justamente a empatia com quem sofre. Geralmente nós buscamos escapar das situações cuidando das coisas que estão ligadas diretamente ao nosso bem-estar, ou então nos desesperamos diante de nossa própria incapacidade de responder a todos esses desafios. Pode nos contar mais sobre isso?
Essa pergunta é linda. Eu não me sinto sempre pronta pra isso que eu comentei. Por exemplo, quando começou a pandemia, e quando estava todo mundo no início dessa situação, falamos: “Bom, então temos que nos isolar, temos que cuidar das coisas, temos que limpar tudo o que entra na casa, temos que nos afastar das pessoas, por nós, por elas”, enfim, tudo isso. Eu tive grande agonia e dificuldade de lidar com isso. Então, minha primeira reação é que eu percebi que não tinha condições emocionais de olhar para isso, para as notícias, muito diretamente. Eu queria saber o que estava acontecendo, procurava me informar em canais jornalísticos e não “achismos”, canais que se responsabilizam pelas notícias que dão e que eu acho mais confiáveis, mas percebi que eu tinha uma cota que eu suportava e mais do que isso eu começava a sentir muita angústia e não dava conta. E aí é uma coisa que interrompe o fluxo emocional, você não respira direito, você não consegue endereçar a sua emoção. Você fica paralisado com aquilo, e aquilo é como se fosse um envenenamento. Eu percebi isso, então eu dosava o quanto eu podia e o quanto eu não podia. E me salvavam os vídeos do “Ô de Casas” que eu comecei a fazer, e cuidar da casa, lavar roupa, lavar louça, cuidar das minhas coisas, cuidar mesmo. Para mim é muito importante, cuidar da minha casa é cuidar de mim. Então eu estava neste primeiro momento com muitas dificuldades, mas depois, em maio e junho, eu comecei a perceber que já cabia em mim mais informação e eu comecei a me sentir capaz de me aproximar de realidades, de dores, de depoimentos, de coletivos, de ações de pessoas mostrando que a vulnerabilidade delas ainda era maior e de base, e pude olhar pra isso e percebi que eu tinha condições de me aproximar e sentir isso sem paralisia. Ao contrário, como um fluxo emocional em que eu me emociono com essas coisas, elas me fazem respirar, e eu quero que isso mude, e eu quero poder fazer alguma coisa pra que isso mude, eu quero ver isso de frente para que isso não exista mais, eu não quero mais simplesmente ignorar. É um movimento diferente de fechar os olhos, é abrir os olhos e ver e querer que aquilo não seja mais assim. E achei que isso era bom e fiquei feliz de ver que eu tinha capacidade de viver essa experiência da empatia sob esse novo ponto de vista. Eu acho que isso é de cada um. Eu sei o que é viver uma situação em que você se paralisa de medo de uma tal maneira, que você nem consegue sentir as coisas, as coisas perdem o fluxo, elas paralisam você. E isso é uma sensação de adoecer. É horrível, é não estar vivo. Por outro lado, quando você pode sentir uma coisa, ainda que seja ruim, ainda que seja uma dor, mas você pode viver essa dor, essa coisa ruim, dentro de um fluxo emocional, isso te traz conhecimento, isso te traz desenvolvimento pessoal, e isso pode fazer alguma diferença também na vida das pessoas. Se eu pudesse pedir alguma coisa na vida, eu prefiro qualquer dor real e que eu possa sentir do que medo paralisante. Estar vivo inclui as dores, inclui você poder olhar de frente, desde que você possa isso, desde que você tenha condições. E isso a gente aprende, a gente vai crescendo, amplia nossa capacidade de sentir, de respirar dentro das situações e de poder fazer alguma coisa por elas.