
À escuta de Achilles – por um gesto sem fim
Uma lembrança do professor Achilles, da Universidade Estadual de Montes Claros, falecido no início de fevereiro. Profissional exemplar, de extrema sensibilidade, conheceu CL quando cursava a graduação em psicologia, na UFMGSaber-se a si mesmo é um mistério sem fim. Todos o enfrentamos. É verdade que uns o fazem de modo periférico, enquanto outros abrem-se a confrontá-lo, colocando-se a si mesmos em questão. Embora seja para todos, poucos são aqueles que, por ofício, dedicam-se a ajudar os outros a enfrentá-lo. Menos ainda, são os que se dedicam a decifrá-lo em seu sentido mais irrevogável, amparando o ofício de quem ajuda outras pessoas ao elucidar como acionar os gestos direcionados a saber-se a si mesmo.
Achilles Gonçalves Coelho Júnior abraçou ambas as missões. Como psicólogo, era com sensibilidade e rigor que ele exercia o ofício clínico. Mas foi seguindo as pegadas da filósofa Edith Stein (1891-1942) que ele também assumiu a tarefa de desvelar o sentido do humano e os gestos para acessá-lo nas vidas singulares de cada pessoa. Achilles foi um clínico de sensibilidade rara, notável para quem quer que entrasse em diálogo pessoal com ele. Ele também foi um professor universitário imbuído do propósito de formar novos psicólogos. Para clinicar, acionava a escuta psicológica com perícia. Tendo contrastado e se apropriado de abordagens clínicas e teóricas consistentes, como a abordagem humanista e a Logoterapia, sabia traduzir seus conhecimentos com didática e competência, fomentando a curiosidade e a aprendizagem de seus alunos. Sua perda repentina em fevereiro de 2026, em pleno engajamento docente na Universidade Estadual de Montes Claros (MG), interrompeu brusca e dolorosamente esta trajetória. Por outro lado, seu contributo à tarefa de oferecer uma ontologia do ser humano, e dos gestos relacionais que despertam sua autenticidade, encontra continuidade na transcendência de sua vida e legado.
Conheci Achilles quando ainda éramos estudantes de psicologia, ele na UFMG, em Belo Horizonte, eu na USP, em Ribeirão Preto. A conexão não foi casual. Seu orientador, professor Miguel Mahfoud, tinha uma estreita colaboração com minha orientadora, professora Marina Massimi. Acredito que muito do que os aproximava academicamente fosse uma profunda afinidade ética. Em vista disso, a psicologia não podia seguir negligenciando a concepção de pessoa, como ocorre em expressivas perspectivas que, por acentuarem isoladamente ou tão intensamente aspectos biológicos, sociais, ou inconscientes, por exemplo, fraturam a integridade pessoal. Outra contrariedade que os afinava era a ameaça de abordar a concepção de pessoa e suas implicações apenas superficialmente, sem atenção à sua espessura própria.
Ainda que Mahfoud e Massimi já enxergassem na fenomenologia a orientação para acessar a experiência pessoal em sua correlação com a cultura, Achilles e eu testemunhamos o encontro que, a partir de 2001, forneceria um caminho de fundamentação para uma psicologia comprometida com aquele sentido ético. Vimos acontecer o encontro com a filósofa italiana Angela Ales Bello, desde sua primeira visita ao Brasil. Filosoficamente, aquele encontro veiculava, de modo muito fértil, o pensamento de Edith Stein, filósofa de origem judia, convertida ao catolicismo e que morreria assassinada na câmara de gás do campo de extermínio nazista de Auschwitz-Birkenau. A entrada na obra de Stein, desdobrava-se igualmente como uma entrada na obra de seu mestre, o filósofo Edmund Husserl (1859-1938). Achilles dedicaria o seu mestrado com Mahfoud à investigação do pensamento de Stein acerca da experiência comunitária, publicando na revista Memorandum o artigo A relação pessoa-comunidade na obra de Edith Stein (2006). Àquelas alturas, casado com Karla e pai de Bruno e Clara, a continuidade dos estudos em um doutorado seria adiada, o que, cerca de dez anos depois do mestrado, acabaria selando a nossa relação e amizade.
Permito-me deixar uma nota pessoal. Sempre me enterneço pelas lembranças das conversas em que seus filhos e esposa eram assunto, inclusive nos tempos da dissolução do casal. Nessas ocasiões, seu amor e preocupação otimista, confiante no fato de que cada membro da família saberia, mesmo nas situações mais delicadas e críticas, encaminhar a melhor solução para suas decisões e dilemas, estampavam-se em seu sorriso sereno e em seu olhar seguro. Nem por isso, é verdade, ele não exercia a paternidade de forma instrutiva, convocando os filhos à ponderação e até impedindo decisões que, a seu ver, fossem prejudicar momentos cruciais de suas formações. A bem dizer, sua confiança era alimentada pelo influxo de valores que, quando acionados, seriam revisitados e balanceados, pelos próprios filhos, para se decidirem. Mas atenção. Seu otimismo nunca foi certeza; era confiança nas vidas de Bruno e Clara. A contínua estima por Karla comparecia também na doçura e respeito por cada laço atado e desatado em suas histórias. Fecho essa nota, que é tão mais pessoal, quanto mais eu a tenho aberta como um modelo suprapessoal de amor à liberdade – não sem intercessão e amparo – de quem amamos. Posso assegurar aí, assim como nos sorrisos cativantes que Achilles estava sempre pronto a abrir, algo que sintetiza não apenas sua autenticidade, mas ressonâncias daquela ética almejada pelos nossos mestres para a psicologia. Não registro isso em vão.
Como seu orientador de doutorado, acompanhei muito de perto o trabalho, no qual frisamos a importância da corporeidade na experiência pessoal autêntica. Como resultado da tese, publicamos o livro Autenticidade e corporeidade na psicologia fenomenológica de Edith Stein. No Prefácio, Ales Bello reconhecia ali a continuidade de um “sonho”, husserliano e steiniano, que podia ter sido dado por interrompido: “Não é por acaso que o livro fala do projeto de uma ‘nova’ psicologia, acrescentarei ‘fenomenológica’, que se está delineando nesse grande país que é o Brasil”.
De lá para cá, Achilles vinha se dedicando à sistematização de uma clínica de orientação steiniana. A escuta suspensiva, dispositivo que estende a empatia para acessar deliberadamente a experiência pessoal alheia, veio sendo contextualizada ao setting clínico. Colocar-se à escuta assim, em respeito à transcendência do outro, isto é, a uma manifestação sempre incompleta da natureza pessoal de cada um, em devir e inacessível em sua inteireza também para si mesmo, é imprimir ao fazer psicológico um gesto sem fim. Esta reverência ao mistério de saber-se a si mesmo equivale àquilo a que só a experiência religiosa responde, algo que sempre nos ultrapassa e supera. Sigo à sua escuta, meu amigo, e sei que não o faço sozinho.
*Cristiano Barreira é professor titular da Escola de Educação Física e Esporte de Ribeirão Preto da Universidade de São Paulo (EEFERP-USP) e orientador nos programas de pós-graduação em Psicologia e em Educação Física da USP. Psicólogo com doutorado em Psicologia, também exerceu funções de liderança acadêmica e institucional, como a direção da EEFERP-USP entre 2017 e 2021, além de atuar em cooperações internacionais, incluindo passagem como professor visitante na Universidade de Bordeaux e na Université Paris-Cité.