“Primeiros Passos”, de Van Gogh.

O maravilhamento pela própria vida

A experiência de um pai diante das perguntas de suas filhas, a não existência do Papai Noel, a comoção pela Eucaristia. E a necessidade de um caminho dentro de uma companhia guiada ao Destino

Perto do Natal, minha filha Rebecca disse: “Papai, preciso te contar um segredo. Papai Noel não existe. E não é justo que vocês comam os biscoitos que nós deixamos para ele”. Silêncio. Tentei colocar em ordem rapidamente um raciocínio falando de amor, sinais e uma improvável metamorfose do Papai Noel nos afetos da família, mas nada. Nada me pareceu preservar aquele senso de mistério e maravilhamento que já está em perigo aos 6 anos de vida. Fiquei incomodado, desviei a atenção.

Até que o Padre Ignacio, no Retiro de Advento, nos deixou uma hora em silêncio frente à pergunta: “Onde, neste último tempo, percebi a comoção de Cristo por mim?” Nesse silêncio surgiram mais perguntas, e pensei: “Talvez alguém estime algo de mim ou talvez sinta compaixão… mas quem se comove hoje por mim?” E sobretudo: “Eu preciso de alguém que se comova por mim?” Estamos tão acostumados com atender as expectativas dos outros, que nos abrimos no máximo para buscar aprovação. E assim nos acostumamos e nos contentamos em ser medidos e em nos medir.

Recentemente a Martina, minha outra filha, de 11 anos, recebeu a Primeira Comunhão. Dois domingo depois, durante uma missa, me comovi ao vê-la caminhar até a Eucaristia, limpei o rosto e disfarcei. Na mesma noite ela me perguntou por que eu estava chorando na missa.

Estava maravilhado por essa vida que caminhava até o seu Destino, e ao mesmo tempo eu estava com saudade do meu caminho. Um maravilhamento cheio de saudades. Tem algo mais longe da minha medida? E pensei durante o silêncio naquela pergunta: “Acaso pode uma mulher esquecer-se da sua criança a ponto de não se comover pelo filho do seu ventre?” Podemos ser tão distraídos, céticos e alienados para ter esta dúvida? Sim. E o profeta sabe: “Mas ainda que esta se esquecesse dele, Eu contudo não me esquecerei de ti. Eis que te gravei na palma das minhas mãos”.

A Rebecca não precisa só de Papai Noel para não perder o senso de mistério. Precisa estar frente a um pai que dentro de uma companhia recupere continuamente o maravilhamento pela própria vida e a saudade pelo próprio Destino.

Filippo, São Paulo (SP)