Reforço escolar (©Portofranco)

Uma presença original no mundo

Uma reflexão sobre o papel dos católicos na sociedade e na política hoje. O artigo de Davide Prosperi no jornal Avvenire
Davide Prosperi

A Coleta de Alimentos de sábado passado envolveu mais de 5 milhões de doadores e coletou 8.300 toneladas de alimentos. Esse gesto levanta pontos de reflexão úteis para entendermos melhor o papel dos católicos na sociedade e na política hoje.

Num contexto social plural como o atual, ser uma presença original significa oferecer sinais visíveis de esperança. Na relação com o mundo, essa esperança expressa-se sobretudo – observa Dom Giussani no livro Un volto nella storia – como partilha, isto é, como um «estar realmente dentro» da situação de necessidade dos irmãos homens, e como juízo novo sobre toda a realidade. De onde nasce essa presença original? Da fé vivida na Igreja, na comunhão cristã. De outro modo, seria impossível ter critérios de juízo livres das ideologias, dos interesses, dos lobbies que dominam o mundo, e ter as razões necessárias para criar iniciativas que escapam ao proveito e à pressão do poder. Não bastam uma inspiração ou uma fé concebida de modo individualista para sermos uma presença original numa sociedade cada vez mais atomizada e polarizada. O Cardeal Zuppi recordou isso na sua introdução à assembleia da CEI: «Uma comunidade viva é sempre uma profecia neste nosso tempo individualista», por isso «somos chamados a nos comprometer em construir a comunidade cristã no lugar onde estamos. Só ela dará carne à nossa fé e um teto aos nossos irmãos».

A política, por sua vez, é chamada a assumir as exigências que vêm da sociedade e a favorecer todas as iniciativas que genuína e eficazmente concorrem para responder às necessidades reais das pessoas. Seu objetivo não coincide com a conquista do poder (isso, quando muito, pode ser o instrumento necessário), mas se cumpre no serviço ao bem comum e na defesa da liberdade e da dignidade da pessoa. Também na política, uma posição autenticamente cristã só poderá emergir do pertencer vivido à Igreja. Ao contrário do lugar-comum, esse pertencer não constitui um limite à liberdade, mas é justamente o que nos torna livres em julgar e, portanto, em levar nossa contribuição a qualquer campo, mesmo quando não é reconhecida ou pode ser hostilizada. Como disse o Papa Leão XIV a uma delegação de políticos franceses, a salvação introduzida por Cristo no mundo «encerra todas as dimensões da vida humana, como a cultura, a economia e o trabalho, a família e o matrimônio, o respeito pela dignidade humana e pela vida, a saúde, passando pela comunicação, a educação e a política. O cristianismo não pode ser reduzido a uma simples devoção privada».

Portanto, é pelo pertencer comum à Igreja que a presença dos cristãos no mundo traz sempre dentro de si uma tensão última à unidade em qualquer âmbito, até a política, para além das várias conotações partidárias. Mesmo que se adira ou se tome partido por organizações distintas, é profundamente desejável um diálogo autêntico sobre as questões fundamentais, para buscar um juízo comum, identificando juntos o que a fé vivida na Igreja tem a dizer sobre as vicissitudes humanas. E, onde subsistirem discórdias, elas serão vistas não como um direito a reivindicar, mas como uma dor, um estímulo a aprofundar o diálogo na caridade, para podermos caminhar sempre mais juntos, também nas diferenças.

Um exemplo de questão fundamental é a educação. A carta apostólica Desenhar novos mapas de esperança coloca aos olhos de todos uma urgência, que ao menos nós, cristãos, não podemos minimizar, relativa à liberdade de educação, falando de modo profundo e atual da escola de matriz católica. De resto, uma perspectiva política laica e democrática, empenhada em reconhecer e sustentar a liberdade das pessoas e a criatividade que nasce do coração da sociedade em função do bem comum, não pode deixar de ter entre seus objetivos prioritários o de garantir uma plena liberdade de educação. Não se trata de um interesse de parte, mas de um direito estabelecido pela Constituição italiana. O artigo 30 reconhece a cada família o direito de decidir livremente como devem ser educados os próprios filhos. Mas é um direito que ainda permanece amplamente no papel – por muitas razões, históricas e ideológicas – e aguarda ser plenamente posto em prática, como acontece na quase totalidade dos países da UE.

É de desejar, então, que sobre este tema se possa registrar uma consciência renovada e um compromisso comum dos católicos, até as consequências operativas que o reconhecimento de tal direito comporta.

De Avvenire.it