
Pigi Bernareggi. Um amigo para sempre
Cinco anos após sua morte, um encontro no Centro Cultural de Milão recorda a figura e o legado do padre missionário no Brasil desde 1964Giuseppe Zola, ex-aluno de Dom Giussani no Liceu Berchet de Milão em meados dos anos cinquenta, fica comovido quando, no Centro Cultural de Milão, recorda o amigo Pe. Pigi Bernareggi na véspera dos cinco anos da sua subida ao céu. Um ano de diferença, os dois frequentaram juntos a seção E da escola em que Dom Giussani ensinou. Escancarando a ambos as portas da razão e do coração, abrindo-os ao encontro com Cristo, que mudou a vida deles. Na sala está também Eugenia Scabini, que com eles viu nascer uma amizade única dentro da experiência da Juventude Estudantil. Uma semente fecunda da qual brotaram as primeiras expedições ao Brasil, a Macapá, São Paulo e Belo Horizonte, além da vocação missionária do sacerdote milanês.
Em conexão do outro lado do oceano, falou Rosetta Brambilla, que hoje dirige as Obras Educativas Padre Giussani, nascidas no seio dessa história e que, a convite do próprio Dom Gius, compartilhou com Bernareggi, no Brasil desde 1964, uma aventura de meio século, como enfermeira e educadora, juntando-se a ele. “Viver com um santo não é fácil, porque te obriga o tempo todo a trabalhar”, disse a seu respeito, recordando a “beleza do seu olhar” junto com o esforço de aprender a “olhar os outros como ele, como Cristo olha você”. Os outros, para Pigi, foram num primeiro momento os jovens de São Paulo e, quase imediatamente, os últimos das favelas, que até 1988 literalmente não existiam aos olhos do Estado. Eram terrenos a serem desocupados. Naquele ano, porém, uma lei que ele ajudou a redigir deu finalmente cidadania às muitas famílias que ali viviam, primeiro passo para um resgate humano e social integral, como ensina a doutrina social da Igreja.
Entre o público, estudantes universitários que acorreram numa fria noite de quarta-feira no centro de Milão, ao lado das Irmãs da Caridade da Assunção da Via Martinengo, que desde outubro abriram uma casa no Brasil, além de muitos que conservam viva a memória deste homem. Rosetta prossegue o relato recordando onde nasceu aquele olhar de Pigi para os últimos: “Ele o tinha aprendido indo à caritativa na Bassa”, brincando com aqueles que eram os marginalizados da sua Milão de então. Crianças descalças como aquelas que depois encontraria no Brasil. É o coração da “educação recebida na Juventude Estudantil, a atenção ao outro porque se está diante de Cristo”. “É assim que Pigi vivia tudo.” Ele que, por extração social, poderia tranquilamente tê-los evitado. Mas não: compartilhou a vida com eles sem antepor nada ao amor de Cristo, como depois diria o seu lema de padre.
Anna Michelini, consultora do terceiro setor e ex-cooperadora da Avsi no Brasil, onde viveu por anos com o marido, instigada pelas perguntas de Zola, recordou aos presentes as características da “Pastoral das favelas” de Pe. Pigi, que hoje se tornou um verdadeiro instrumento nas mãos da Diocese: “O máximo de assistência aos pobres, tornando-os plenamente conscientes dos seus direitos, partindo porém de pressupostos bem diferentes” em relação às reivindicações sindicais e políticas. Mundos com os quais Pe. Pigi sempre dialogou sem temer o confronto com ninguém e sem perder-se nas derivas teológicas tão frequentes naqueles anos entre muitos homens de Deus.
“Era exemplar”, acrescentou, também por conexão, Pe. Giovanni Vecchio, desde 1974 também missionário na cidade mineira, porque era “antes de tudo sacerdote: apegado a Cristo e com um profundo senso do mistério”. Foi assim que edificou comunidades cristãs presentes ainda hoje nas paróquias. E por toda a vida permaneceu fiel ao carisma de Dom Giussani, como testemunhou Marco Montrasi, por treze anos responsável de Comunhão e Libertação no Brasil: “Quando eu o encontrava, tinha a nítida percepção de que, naquele preciso momento, eu era para ele o Movimento, e que ele se punha a serviço”.
Um “amigo para sempre”, como na canção entoada por Pe. Giovanni Vecchio antes de concluir. E se, para a ocasião, foi evocada por mais de um expositor a palavra “santidade”, é verdade que, como sublinhou Zola, “não cabe a nós julgar, mas à Igreja”. Enquanto isso, para “manter viva a sua memória” e “para uma nossa conversão”, nasceram dois comitês, um no Brasil e um na Itália, aos quais será possível escrever para coletar fatos e documentação.